Quando os trabalhadores ficam do lado de fora
Rangel Marcon – presidente da Federação Nacional dos Trabalhadores nas Indústrias do Tabaco e Afins (Fentitabaco)
Estar em Genebra durante a 11ª Conferência das Partes para o Controle do Tabaco (COP-11) é constatar, com os próprios olhos, que ainda há resistência quando o assunto é ouvir quem vive a realidade do chão de fábrica e da pequena propriedade. Representamos mais de 44 mil trabalhadores em todo o Brasil e, ainda assim, precisamos insistir para sermos reconhecidos como parte legítima do debate. Ficamos de fora mais uma vez da reunião oficial, mas não abrimos mão de buscar diálogo. Foi na Embaixada do Brasil que conquistamos um espaço. A partir de um movimento coletivo e persistente, conseguimos agendar reuniões para os dias 19 e 20, abrindo uma chance real de levar informações, dados e a visão de quem está hoje na linha de frente das consequências das decisões tomadas aqui.
O embaixador Tovar da Silva Nunes foi sensível ao nosso propósito e demonstrou abertura para que as entidades ligadas à indústria, à lavoura e ao emprego sejam ouvidas. Esse gesto é significativo, pois não se trata apenas de uma pauta econômica. Trata-se de famílias, de renda, de sustento, de esperança e de um Brasil profundo que quase nunca tem espaço na mesa das grandes conferências. Mas é impossível deixar de observar que, muitas vezes, o setor produtivo parece se desorganizar internamente justamente na hora em que mais precisa estar unido. Nota-se claramente que os representantes dos trabalhadores e alguns atores da indústria não recebem a mesma atenção que determinadas entidades com maior presença política. A sensação é que existe, sim, uma tentativa de deixar certos grupos de lado, como se a visão social pudesse ser adiada ou silenciada.
Não viemos a Genebra para confrontar ninguém, mas para dizer que o caminho do futuro passa obrigatoriamente pela escuta. Não existe transição justa quando apenas um lado fala. Não existe avanço se a dignidade de quem trabalha não for tratada como valor essencial. E não existe respeito quando os trabalhadores são convidados apenas para observar, e não para participar. Aqui, na COP-11, ficou claro que ainda precisamos explicar que a cadeia do tabaco não é composta apenas por dados de exportação, mas por pessoas que têm história, cultura e identidade com aquilo que produzem. E é em nome delas que estamos presentes.
Nossa federação representa trabalhadores que todos os dias iniciam sua rotina muito antes do nascer do sol para garantir o sustento de suas famílias. São homens e mulheres que mantêm vivas comunidades inteiras em mais de 600 municípios brasileiros. A indústria e a agricultura do tabaco têm atravessado décadas de mudanças, adaptações e avanços em saúde e segurança. O trabalhador fez a sua parte. Agora, quer ser ouvido. E não será excluído das discussões que definem o próprio futuro da sua atividade. A COP-11 precisa compreender que incluir a dimensão social é também um ato de responsabilidade global. Não pedimos privilégios. Pedimos reconhecimento da realidade.
As conquistas de hoje não são definitivas, mas indicam que ainda há disposição de diálogo — e é nossa responsabilidade ocupá-lo com respeito, argumentos e coragem. Estar na COP-11 é sentir o peso de representar milhares de famílias. É perceber que há portas que custam a abrir, mas que começam a se mover quando mostramos que o trabalhador brasileiro não fala apenas por si, mas por uma comunidade inteira. E é aqui que reafirmo: seguimos prontos para colaborar, para construir caminhos e para defender a dignidade de quem, todos os dias, transforma trabalho em vida. A voz do trabalhador não será calada. Ela já chegou até Genebra — e seguirá adiante.